#4 Cobrança!
- Marcelo Honório

- há 4 dias
- 3 min de leitura
Hoje eu vim falar de uma coisa que acredito que aconteça com todo mundo: cobrança. Mãs *leia com o sotaque da Urach*, alinhado às expectativas da maioria de vocês que me leem, vou afunilar o tema pro universo gay.

Isso mesmo, meus amores, quero refletir aqui sobre como esse tema chega na gente. Como que um gay cobra? Como que um gay é cobrado? O que é cobrado da gente? Eu sei que aqui não é Globo Repórter, mas é sexta-feira e pra essas perguntas deve haver alguma resposta, não é possível.
Mas antes, uma palavrinha com quem me cobrou pra voltar com as crônicas: gente tava lavando o cabelo, desculpem o sumiço. Nesse um ano e alguns dias sem postar aconteceu tanta coisa. É difícil ser psicólogo, blogueiro, redator, contador e dono do lar sem se perder um pouco. Me cobrem depois de atualizá-los.
Enfim... vamo lá.
Durante essa semana, essa palavra, cobrança, apareceu em diversos lugares da minha vidinha gay. Apareceu na boca dos meus amigos gays, no corpo dos meus analisandos, também, gays. E na alma de quem também corrobora pra existência do ecossistema gay.
Se houvesse um único responsável por isso eu diria algo bem assim:

"Você pode cobrar todo gay por quase todo tempo, quase todo gay por todo tempo... mas não pode cobrar todo gay por todo tempo".
Meu amigo Jorel, mal saiu de um relacionamento em que se sentia cobrado, sufocado e, pasmém, nesses últimos três meses, dois dos caras que ele conheceu começaram a cobrar dele presença.

E isso, por si só, há de fazer a gente pensar no que a gente anda cobrando dos outros também. Dois desses gays talvez estejam representando muitos de nós: dificuldade em lidar com as pequenas ausências, com as pequenas distâncias.

Minha geladeira essa semana ameaçou pifar porque o termostato não estava funcionando. E talvez seja exagero meu, mas comecei a achar que o termostato de nós, gays, anda funcionando igual geladeira velha. A gente não sabe a hora de congelar ou descongelar.
Jorel também anda tentando entender quanto dele precisa esfriar pra conseguir sobreviver aos afetos.
Já na minha clínica, o que eu mais faço durante a semana é ouvir gays cansados de se ajustar à norma do outro. À régua do outro. Com uma intervenção aqui, outra acolá, a gente tenta movimentá-los pra um lugar muito simples e ao mesmo tempo muito difícil:
VOCÊ NÃO PRECISA AGRADAR TODO MUNDO PRA EXISTIR!
VOCÊ PODE SER FIEL AO PRÓPRIO DESEJO!
VOCÊ NÃO PRECISA SER BONZINHO COMO FORMA DE COMPENSAR A PRÓPRIA SEXUALIDADE!
E por aí vai...
Mas é babado, viu?!
Porque de tanto sermos cobrados a não existir, a gente acaba aprendendo a se cobrar também.
Tem horas que eu mesmo, o queridinho que ocupa o lugar do suposto saber enquanto trabalha, me cobro pesado por existir.
Me cobro em ser o mais inteligente, o mais bonito, o mais querido, o mais desejável, o mais AGRADÁVEL (Inferno de palavra (Inclusive, enquanto escrevo esse texto, tô exatamente o oposto disso tudo. Tô amargo pensando nesse tanto de cobrança)).

E olha como isso piora: a gente projeta até nas divas pop que apoiam a gente.
Sábado passado, No show da Shakira, o que eu vi de gay cobrando performances surreais daquela mulher… sendo que ela já tava entregando tudo.
Em show de hétero não parece existir tanto isso.
Talvez, porque essa tentativa desesperada de caber numa norma faça a gente exigir perfeição até de quem nos representa.
YOTRA!!! Talvez o mais cansativo de ser gay não seja nem sobre amar. Seja performar o tempo todo como alguém digno de amor.
E no meio de tanta cobrança, eu fico pensando: o que você anda cobrando dos outros que, no fundo, aprendeu a cobrar de si mesmo?
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